Estudo aponta que o consumo de música nacional tem crescido nos últimos anos

Com o aumento do uso de serviços de streamings musicais, o brasileiro tem escutado mais as músicas do próprio país. 

O brasileiro tem preferido escutar músicas feitas no próprio país a canções internacionais? É o que sugerem dados extraídos do Spotify Charts, recurso que permite consultar as canções e os artistas mais buscados na plataforma de streaming. Segundo levantamento feito por Francisco Suarez, consultor do Centro de Sistemas Públicos da Universidade do Chile, na lista dos top 50 mais ouvidos em determinada semana do mês de abril deste ano, 94% eram de nacionalidade brasileira.  

Em comparação com outros países da América Latina, o Brasil fica em primeiro lugar no ranking, bem à frente dos demais listados, inclusive do segundo e terceiro colocados, respectivamente Colômbia (44%) e Argentina (34%). Também aparecem na relação países da América do Norte, Mexico (20%), e América Central, como República Dominicana (16%). Ao contrário do que acontece aqui, países como Peru (2%) e Equador (0%) têm pouca ou nenhuma adesão a artistas nacionais, sugerem os dados.

A preferência por músicas nacionais pode ser justificada pelo sucesso do funk, sertanejo e do forró, ritmos que mais fazem sucesso atualmente. A cantora MC Drika, por exemplo, foi indicada ao prêmio BET Awards na categoria de Melhor Novidade Internacional. Por meio de iniciativa do Spotify de reconhecer o papel das mulheres na música, no último dia 15 de junho, a funkeira teve o rosto estampado em um telão na Times Square, uma das regiões mais frequentadas em Nova York. A premiação, que foi criada em 2001 pela Black Entertainment Television, surgiu para reconhecer artistas afro-americanos da música, atuação, esporte e outras áreas do entretenimento. 

 A cerimônia ocorreu no dia 27 de junho deste ano e, além de MC Drika, o rapper Emicida também representou o Brasil. Na categoria Melhor Artista Internacional, Emicida era um dos indicados, mas quem levou o prêmio foi o nigeriano Burna Boy. Já na categoria de MC Drika a vencedora foi a rapper britânica Bree Runway. 

Embora uma amostragem feita apenas com base no consumo de músicas em plataformas digitais não seja suficiente para determinar o gosto da população brasileira, já que públicos mais jovens são mais propensos ao uso do digital em relação a gerações anteriores, não deixa de ser significativo o impacto que os gêneros já mencionados exercem no mercado fonográfico. Entre os dias 10 e 17 de junho, por meio de consulta aos dados do Spotify Charts, a reportagem apurou que dentre as 100 músicas no ranking das mais ouvidas no Brasil, apenas dezessete faixas eram internacionais, sendo a maioria das nacionais dos gêneros funk, forró, rap e sertanejo.  

Ainda que existam hoje inúmeras formas de divulgação de trabalho na internet, produzir conteúdo musical voltado para plataformas de streaming que tenha alcance e lucratividade é uma tarefa complicada, garante João Cambraia, responsável pelos projetos Bad Bugs, Metatron e Cambraia Music. “No Spotify, a maior dificuldade para o artista é conseguir publicar a música, pois precisam de distribuidoras, como a One RPM, que entrarão com uma proposta para dividir a porcentagem para a divulgação de qualquer trabalho, que costuma render muito pouco para artistas independentes e sem um grande capital de investimento”, conta o músico. 

Em meio aos desafios de conseguir visibilidade nas plataformas de streaming, João afirma que tornar as redes sociais bem consolidadas é importante para divulgação dos trabalhos feitos. “O Spotify não funciona como propósito de divulgação, e sim as redes sociais, a não ser que o artista pague por publicidade, que estão ligados a artistas já bem populares, que tem um grande fundo de investimento, com consequências contratuais com grandes gravadoras”, explica. 

Ainda existe vida fora das plataformas de Streaming? 

Apesar do avanço que as novas tecnologias oferecem ao reunir diversos artistas e incontáveis faixas na palma da mão, existem pessoas que ainda preferem escutar música “à moda antiga”.  

Dono de uma vasta coleção de discos, o carioca Bernardo Machado (50) tem um perfil bem distinto do público consumidor de músicas em plataformas de streaming. Se um jovem não abre mão da comodidade de ouvir música apenas clicando o dedo na tela do celular, um adepto do vinil se encanta mesmo é com a engrenagem que produz o som que tanto emociona. “O universo fonográfico, na minha opinião, ganha um fascínio especial quando tem o formato de uma bolacha de vinil, junto com uma capa bacana. Claro que a qualidade do som faz diferença, mas admito que a minha curtição é mesmo a mágica do disco rodando, captado por uma agulha. Cada faixa armazena um mundo sonoro”, relata o colecionador. 

Embora não seja usuário do Spotify e serviços similares, o colecionador de vinil se entusiasma com sites como o YouTube por tornarem disponíveis milhares de músicas, o que na visão dele acaba funcionando como uma “vitrola virtual” para quem não tem acesso a discos nem a equipamentos para escutá-los. 

Grande admirador de artistas internacionais (sem desprestigiar os brasileiros), Bernardo ficou surpreso com os dados que mostraram uma ampla preferência por músicas nacionais: “É um fenômeno surpreendente, considerando que houve, por muitos anos, uma forte tendência a se consumir música internacional aqui no Brasil. A expressiva vendagem de trilhas sonoras internacionais de novelas (lançadas em vinil, depois em CD), quase sempre superando a das trilhas nacionais, exemplifica isso. Na década de 1970, vários cantores brasileiros passaram, inclusive, a usar pseudônimos estrangeiros e gravar músicas em inglês, que obtiveram enorme sucesso, sendo incluídas com frequência em discos de novelas”, explica.

Bernardo Machado com o álbum Days of Future Passed, do The Moody Blues, banda britânica de 
Rock Progressivo criada em 1964. Foto: Allan Ricardo 

Seu apreço pelos discos de vinil vem desde a infância. “Os discos e a vitrola eram os meus brinquedos preferidos. Aos poucos, a coleção foi aumentando, com diversos lançamentos nacionais e internacionais”. Segundo o colecionador, que é formado em Desenho Industrial, “capa não é um elemento meramente informativo, mas representa uma identidade visual exclusiva para aqueles sons que ela preserva”. Para ele, “cada disco é um objeto único, tem uma ‘personalidade’. Não é uma lista de arquivos ‘abstratos’, que tocam quando apertamos o ‘play’ ”.

Questionado sobre o atual cenário da indústria da música (no qual predominam certos ritmos, com lançamentos feitos na internet, e não mais em discos ou CDs), Bernardo acredita que a mídia contribui para restringir o espaço a possíveis talentos. “Bem, não se pode negar que há um poderoso marketing nesse cenário atual da música. Para satisfazer um público sempre ávido por novidades, aposta-se em modismos, caras e bocas, com produções de alto custo, enquanto a qualidade musical, muitas vezes, não acompanha os apelos visuais. A imagem canta mais alto”, argumenta o apreciador de vinil. 

Apesar das críticas à cena musical atual, ele reconhece a importância da diversidade de gêneros artísticos: “Ainda bem que sempre existirão músicas excelentes, para todos os tipos de ouvintes”.

Por André Vinícius, Allan Ricardo e Matheus Carneiro

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