Agroflorestas urbanas – Sítio Geranium: Uma opção agroecológica para a sustentabilidade

Maria Abadia e Marcelino Barberato – Casal proprietário do Sítio Geranium/DF – arquivo pessoal

Agrofloresta é uma floresta construída pelo homem de maneira a reproduzir as mesmas condições de equilíbrio e dinâmica de uma floresta natural. Nesse sistema há um balanceamento de várias espécies diferentes em um desenho específico de plantio e manejo para cada local. Cada planta e árvore são inseridas no lugar de modo planejado de acordo com seu ciclo de vida e com suas necessidades. 

A agricultura urbana, segundo Ernst Götsch, em seu site onde se registra seu trabalho de recuperação de terras degradadas no sul da Bahia, criando agroflorestas, é um dos caminhos mais inteligentes na busca por sustentabilidade nas cidades.  

Além de substituir o uso de agrotóxicos e diminuir o uso de maquinário pesado para o desenvolvimento da colheita, o sistema de plantio agroflorestal consegue revitalizar o solo em questão, que aumenta sua biodiversidade de forma natural, melhora a qualidade do ar e do produto do plantio onde se encontra. Esse tipo de plantio estabelecido em meio às cidades são capazes de melhorar respectivamente a umidade e a biodiversidade onde se encontra. 

A aplicação de Sistemas Agroflorestais (SAF) em áreas urbanas podem oferecer serviços ambientais importantes, pois sua aplicação não se restringe a áreas de produção, sendo sua utilização possível também na recuperação de Áreas de Proteção Permanente (APP) e de Reserva Legal. Dentre as contribuições pode-se citar segurança alimentar; aumento de áreas permeáveis para minimização de enchentes e contribuição para águas subterrâneas, redução de poluição em áreas urbanas; conservação de diversidade biológica; promoção de recreação, educação e interpretação ambiental. Observa-se a importância de adequação desse tipo de sistema ao contexto urbano. As políticas públicas em relação a esse assunto ainda estão pouco estruturadas, faltando maior participação efetiva do estado nos diferentes níveis.  

Em entrevista à Rede Nacional de Mobilização Social – COEP (Comunidade, Organizações e Pessoas), Eixo de Erradicação da Miséria, Marcos José de Abreu, engenheiro Agrônomo do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro) e presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina (Consea-SC), afirma que, com a agricultura urbana, as cidades podem tornar-se espaços mais humanos, agradáveis e que seguem o ritmo da natureza. Mas, para isso, afirma, é preciso que a atividade seja regulamentada, subsidiada e contemplada pelas políticas públicas e, em especial, pelos planos diretores das cidades. 

As agroflorestas presentes na cidade, são produzidas com a administração de simples agricultores, a fim de plantar uma maior diversidade de espécies agrícolas em um determinado espaço, sendo uma boa opção para os grupos de micro agricultores venderem seus produtos a seus clientes, já que vão produzir mais e com maior qualidade, por serem produtos livres de impurezas, sem nenhum artifício ou agressão ao solo. Por isso, como afirma César Nunes de Castro, Especialista em Políticas Públicas e Gestão na Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais (Dirur) do Ipea, no Boletim Regional, Urbano e Ambiental/IPEA jul – dez. 2015, estão sendo discutidos pelos poderes públicos vigentes, os subsídios prescritos para esse tipo de agricultura, que não possui influência das assistências já prescritas nas monoagriculturas convencionais, como maquinário e distribuição. 

O Distrito Federal é referência em sistemas sustentáveis com viés ecológico, vemos a influência disso com o surgimento de várias agroflorestas nas últimas décadas, conforme pode-se observar na página da Secretaria do Meio Ambiente (SEMA), sobre o Projeto CITnova, que é dividido em duas frentes de ação: planejamento urbano integrado e investimento em tecnologias, com a atuação de profissionais envolvidos na área ambiental atuando na região, que colabora com sua urbanização bem planejada.

Um exemplo é a Área de Relevante Interesse Ecológico Juscelino Kubistchek (Arie JK), criada 1996, situada entre as cidades de Samambaia, Ceilândia e Taguatinga e que é extremamente importante para a garantia da preservação da fauna, da flora e dos recursos hídricos que no futuro deverão abastecer as cidades do Distrito Federal. O Sítio Geranium está dentro desta Área e trabalha diariamente para manter o local preservado. Há várias agroflorestas espalhadas pelo local. Espaços que antes estavam vazios e inutilizados se tornaram florestas cheias de vida e biodiversidade.  

Para conhecer um pouco mais sobre o Sítio Geranium, localizado a poucos metros de movimentadas áreas urbanas, escondido aos olhos dos que transitam distraídos pelo Setor L Norte/via Samambaia (ARIE JK, Núcleo Rural Taguatinga/DF), conversamos um pouco mais com os proprietários e responsáveis pela grande gama de atividades do Sítio Geranium,  a odontopediatra Maria Abadia e seu esposo, o engenheiro civil Marcelino Barberato.  

MATHEUS CARNEIRO – Qual a motivação para a aquisição e o investimento no Sítio Geranium? 

MARIA ABADIA – O Sítio Geranium foi criado inicialmente como uma chácara particular por mim, que sou odontopediatra e por meu esposo, o engenheiro civil Marcelino Barberato, em 1986. O aprendizado em agroecologia começou durante o I Encontro de Agricultura Alternativa da UNB, realizado ainda em 1986. Em um momento de transição, abandonamos a vida de um condomínio fechado para morar no meio do cerrado e iniciar a produção de alimentos orgânicos. As cidades em volta cresceram (Ceilândia, Samambaia e Taguatinga) e o interesse pelo fortalecimento de ações socioambientais também. Vieram então o cultivo de ervas medicinais, mudas de árvores nativas e uma infinidade de conhecimentos e práticas ecológicas, fundadas na permanente capacitação da equipe que gerencia o Sítio e na parceria com diversas instituições, faculdades e colaboradores. Com os anos, os sonhos se expandiram e as ações também. Atualmente, além do trabalho com produção orgânica, o Sítio desenvolve atividades ecopedagógicas e também eventos.

MATHEUS CARNEIRO – Vocês moram neste espaço? 

MARIA ABADIA – Sim, nossa família mora e cuida da administração de todas as áreas do Geranium.

MATHEUS CARNEIRO – Como iniciou a criação de agroflorestas e por quê? 

MARCELINO BARBERATO – Sempre tivemos muito interesse na agroecologia, produzindo com consciência ecológica e encontramos na agrofloresta a alternativa perfeita para esse projeto de vida sustentável. Assim fizemos nossa primeira formação em agrofloresta, depois organizamos cursos, sendo um deles realizado por Ernst Gotsch (agricultor e referência na criação de agroflorestas). 

MATHEUS CARNEIRO – Em que foram pautadas as escolhas das atividades desenvolvidas no Sítio Geranium e quais são elas? 

MARIA ABADIA – O Sítio Geranium é um centro de referência em Educação Socioambiental e produção de alimentos orgânicos. Também oferece espaço para realização de cursos e eventos. O Sítio funciona como um ambiente vivo para trocas, aplicação, ensino e pesquisa de conhecimentos e técnicas que possibilitem o desenvolvimento de uma cultura da sustentabilidade. 

MATHEUS CARNEIRO – Como funciona o Sítio, enquanto empresa?

MARCELINO BARBERATO – Trabalhamos com Produção orgânica, Yoga, Educação ambiental, Locação para eventos (há um espaço para festas, como casamentos, simpósio, seminários). Temos 16 funcionários registrados, sendo que 07 residem no Geranium, sem custo com aluguel, água e luz. 

MATHEUS CARNEIRO – Quais os cursos, oficinas, workshops, mais relevantes e recorrentes que o Sítio oferece? Há cursos de criação de agrofloresta? 

MARIA ABADIA – No Sítio Geranium são promovidos diversos cursos em áreas socioambientais, educativas e de saúde, onde alcançamos nossos objetivos em diversas faixas etárias e diversidade. Na área da saúde também temos o trabalho do Curso de formação de instrutores de yoga e oferecemos aulas regulares. Além disso, cursos de meliponicultura, agricultura orgânica, minhocultura. Promovemos também, em 2013, o Curso Básico de Agrofloresta Sucessional com Fabiana Peneireiro (Agrônoma e Mestre em Ciências Florestais pela ESALQ/USP). 

MATHEUS CARNEIRO Há investimentos públicos na manutenção das atividades desenvolvidas, principalmente em relação à agrofloresta? 

MARCELINO BARBERATO – Não, todo o investimento é feito com a renda do trabalho da empresa.

Por Matheus Carneiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: