A ARTE DA SOBREVIVÊNCIA

Artistas de rua utilizam os espaços públicos do Distrito Federal como palco de suas apresentações

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Artistas vendem artesanato próximo à Rodoviária do Plano Piloto (Foto: Sara Pereira)

Por: Felipe Sousa, Sara Pereira, Tainá Alves e Wenderson Beckister 

Com um nível de desemprego oscilante, o Brasil tenta deixar para trás os vestígios de uma grande crise econômica. Por esse motivo, muitas pessoas acabam usando  a arte como forma de sobrevivência, seja dançando, cantando, recitando poesias, atuando, fazendo acrobacias ou vendendo arte nas ruas, semáforos, ônibus e metrôs.

Atualmente, não existe legislação nacional que regulamente a atividade praticada por artistas de rua, o que dificulta o acesso à dados ou informações sobre este tipo de exercício. Em contrapartida, hoje tramita no Senado Federal o Projeto de Lei n° 3964, de 2019, que visa permitir apresentações culturais e manifestações artísticas, com permissão para a solicitação de contribuições espontâneas.  

Segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego no Distrito Federal – PED-DF, realizada pela Secretaria de Estado de Trabalho, CODEPLAN e DIEESE, em relação a agosto de 2018, o número de desempregados no DF aumentou em 14 mil pessoas em 2019. São levantamentos como esse que explicam a necessidade de garantir o pão de cada dia a qualquer custo, contanto que seja de forma honesta. 

JOVENS ACHAM NA ARTE UMA FUGA DO DESEMPREGO 

Andar pelas ruas de Brasília encontrando artistas vendendo acessórios artesanais, e quadros autorais, é bastante comum. Basta olhar para o lado que pode se encontrar um jovem vendendo seu trabalho para conseguir custear a faculdade, por exemplo.

Um dos principais problemas para o jovem conseguir ingressar no mercado, é a dificuldade de conciliar o trabalho com os horários rigorosos da faculdade. Foi o caso da estudante de Enfermagem da UnB, Priscilla de Souza, que criou um projeto chamado Velharia de Cor que consistia em uma série de quadros e adesivos feitos por ela. “Precisava trabalhar mas os horários da minha faculdade não me permitiam, já que passava o dia todo na UnB, achei ali mesmo uma maneira de ganhar dinheiro”, conta.

Juntando seu amor por carros com seu novo projeto, Priscilla começou a expandir seu negócio vendendo seus quadros em eventos de carros antigos que acontecem no Parque da Cidade, abriu um estande na Feira da Torre de TV, e assim foi conquistando seu público.

“No início este mercado era muito novo, não havia concorrência. O problema era conseguir conquistar um público, já que na época as pessoas não valorizavam tanto um trabalho como o meu, comprar adesivos e quadros no meio da rua? Onde já se viu isso!?”, brinca a estudante.

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Priscilla de Souza em uma exposição de carros antigos, no parque da cidade. (Foto: Tainá Alves)

Esse tipo de ocupação vem ganhando cada vez mais notoriedade e respeito dentro da sociedade tendo em vista seu crescimento exponencial nos últimos tempos. O microempreendedorismo tem se tornado cada vez mais popular no Brasil, pois é uma das melhores alternativas para driblar a crise econômica que a tanto tempo se enfrenta, ele abre oportunidades das mais diversas e inúmeras maneiras de se expressar fazendo aquilo que ama. Ganhando grande popularidade entre a parcela jovem da população, essa modalidade tornou-se uma das maiores e mais bem quistas maneiras de fazer seu próprio dinheiro, uma espécie de cultura “teen”.

Pesquisa feita pela GEM em 2017 (Global Entrepreneurship Monitor) do Sebrae mostrou que o percentual de indivíduos entre 18 e 34 anos que detêm negócios em fase inicial chegou a marca de 57%, o que representa que aproximadamente 15 milhões de jovens. 

O TREM DA ESPERANÇA

De um vagão para o outro, os talentos vão surgindo aos poucos no metrô-DF. Ao som da melodia, os artistas se apresentam como podem, seja com músicas, danças, acrobacias e malabarismos.

Cada um mostra a sua arte de forma criativa para chamar a atenção do público presente, fazendo do trem um palco que sempre cabe mais um. Eles (os artistas) quebram o sistema que os impedem de mostrar as suas artes, transformando o seu talento em uma forma de ganhar o seu pão.

Júlio Ferreira veio de Maceió (AL) em busca de novas oportunidades de emprego, mas a crise acabou atrapalhando os planos de Ferreira que viu na arte uma brecha para driblar o desemprego e conseguir se sustentar. “Eu fiz um plano, mas acabei chegando a esse ponto de fazer arte no metrô para conseguir sobreviver. Infelizmente, a gente tem que se humilhar para arrecadar em um dia uns R$ 20,00. E olha que às vezes não chega nem a isso. Os seguranças nos atrapalham de fazer cultura no metrô, isso é triste”, lamenta.

A assessoria do Metrô-DF foi procurada para falar sobre o caso, mas afirmou que não tem fonte para comentar sobre o assunto. Em nota publicada no site, a empresa afirma: “Quem quiser se apresentar periodicamente terá de entregar planejamento de no máximo três eventos por semana, com duração de até três horas e aguardar a avaliação da Assessoria de Comunicação Social, responsável pela aprovação ou recusa’’.

Quando questionada sobre as apresentações dentro do vagão, a assessoria não respondeu à pergunta até o fechamento da reportagem.

OS DESAFIOS PARA PROLONGAR O CANTO DO CISNE

Imagem 3Artista de rua se prepara para mais um dia de cantoria na plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto.(Foto: Felipe Sousa)

Eles são a trilha sonora involuntária das milhares de pessoas que passam diariamente pelas praças, rodoviárias e lotações pelo Distrito Federal. Vindo de origens e contextos diferentes, usam as ruas como palco para expor seus trabalhos. Não são difíceis de encontrá-los: volta e meia é possível vê-los e ouvi-los na Praça do Relógio, em frente à shoppings ou na Rodoviária do Plano Piloto, só para citar alguns exemplos.

É comum, por parte dos artistas e cantores de rua, fazer covers de músicas já consagradas, mas muitos também adicionam ao repertório composições autorais. É o caso de Luciano Costa, que se apresenta em transportes e espaços públicos há seis anos. Para ele, se apresentar em público foi uma oportunidade boa demais para deixar passar: ”Foi a vontade de unir o útil ao agradável. Eu já fazia música e precisava trabalhar, então decidi começar a trabalhar com música para ganhar dinheiro”, diz o artista.

Perguntado sobre o seu processo de composição, Luciano foi enfático: ”Não existe processo, só quando há sentimento em um momento inspirado. O sentimento vem e flui’’, afirma.

Questionado se há preconceito por parte de alguns, Leandro concorda, resignado.”Lidar com as pessoas é o maior desafio quando você começa a tocar nas ruas. As pessoas criam o preconceito, preferem ter um conceito antecipado antes de te conhecer. Mas eu tento propor uma conversa para que as pessoas me conheçam”, completa.

No áudio a seguir, Luciano conta um pouco mais sobre os desafios e outros aspectos da arte de rua, ouça:

No Rio de Janeiro, artistas estão proibidos de se apresentarem no transporte público carioca desde junho de 2019 após a Justiça considerar inconstitucional a lei que regulamentava a atividade nos coletivos: “A cada um cabe escolher, de acordo com os seus valores e convicções, que tipo de arte e em que momento pretende assisti-la, não sendo razoável ou proporcional qualquer imposição, haja vista a possibilidade de simplesmente pretender exercer seu direito ao sossego, o que não é possível, diante da exposição a gritarias e ruídos estridentes de aparelhos musicais”, escreveu o desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes no acórdão. A ação foi movida pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro, hoje Senador da República.

De volta ao DF, os artistas de rua tentam se estabelecer como um movimento cultural legítimo. Há três anos ocorre em Brasília o Festival Internacional de Artistas de Rua (Festirua), que junta artistas de várias vertentes em apresentações espalhadas pelas cidades-satélite. Um dos objetivos é conseguir uma aproximação dos artistas com o público em geral. 

VISÃO POSITIVA

O Foca News teve dificuldade em encontrar quem não aprecie as apresentações de artistas independentes pelas ruas de Brasília. Todos aqueles que foram abordados dizem admirar a força de vontade daqueles que tentam ganhar a vida mostrando seu talento.

Rayza Nunes, 28 anos, é moradora de Santa Maria e conta que gosta de apresentações desse gênero. “Acho de extrema importância a divulgação da arte nas ruas, especialmente na periferia, pois esses moradores não têm acesso à cultura, em virtude da situação financeira. Penso que toda arte urbana tem papel fundamental na sociedade. Nossos governantes deveriam incentivar a arte e cultura em nosso país, pois acredito que são armas eficazes para modificar vidas”, afirma.

Já David Caixeta, morador do Gama, admite que sente estima por esse tipo de profissionais. “Considero válidas as apresentações culturais realizadas pelos artistas de rua na cidade. Por vezes me deparo com alguma apresentação no dia a dia, durante o percurso de casa ao trabalho, e sempre que posso, colaboro com alguma quantia em dinheiro. Fico contente em saber que o cidadão brasileiro é tão criativo e inteligente, e que pode sim, mesmo sem muitos recursos, ganhar seu pão de cada dia de forma honesta”, conta.

A Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec), declarou  que  valoriza as mais diversas manifestações artísticas, sejam elas de pequeno ou grande porte. “A ocupação dos espaços públicos por meio da arte é um processo importante para os centros urbanos, e parte fundamental da economia criativa”, justifica.

Quando questionada sobre a existência de incentivos à essa prática, recebemos a seguinte resposta da Secretaria:  “Entendemos, que a profissionalização e o incentivo para artistas e produtores locais é essencial para movimentar essa cadeia. Por isso, a Secec tem investido em uma série de ações para democratizar ainda mais o acesso de agentes e produtores culturais aos mecanismos disponibilizados pela pasta. Entre eles, estão linhas do Fundo de Apoio à Cultura voltadas não só para a ocupação dos equipamentos culturais do Governo do Distrito Federal, mas também aos artistas de Regiões Administrativas fora do centro. Além disso, a Secretaria tem feito oficinas de capacitação para acesso a essas e outras linhas de fomento como a Lei de Incentivo à Cultura, Conexão Cultura DF e termos de fomento, garantindo a difusão cultural, levando ações e intervenções artísticas por todo o DF.”


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