Canabidiol: a substância que pode ajudar no combate de doenças como depressão, epilepsia e autismo

Brasil abre as portas ao composto químico da maconha

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Por Estevan Teixeira

Em 2015, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou que o canabidiol não fazia mais parte das substâncias proibidas aqui no Brasil. Com isso, o produto químico passa a ter seu uso liberado para ser utilizado na fabricação de medicamentos para problemas neurológicos.

Mas afinal, o que é o canabidiol? É uma substância química, também conhecida como CBD, que corresponde a cerca de 40% de todos os extratos da planta Cannabis sativa – maconha, como é popularmente conhecida. De acordo com estudos científicos, o CBD pode ajudar no combate de doenças como: artrite, doença de Parkinson, doença de Alzheimer, depressão, epilepsia, esclerose múltipla, autismo e etc.

Mesmo com a liberação da Anvisa, o acesso ao medicamento não era tão fácil. Porém, desde outubro de 2018 a Secretária de Saúde publicou uma portaria que reduz a burocracia para obter o acesso a substância. Para aqueles que desejam usufruir dela, basta uma indicação médica e um cadastro, que pode ser agendado pelo telefone 160. Com essas novas regras, os compostos passam a ser ofertados na Farmácia de Alto Custo.

O uso terapêutico do canabidiol

A substância pode ser usada para o tratamento de vários problemas, como já é relatado em inúmeras pesquisas. Com grande potencial terapeuticio neurológico, o CBD tem uma vasta área de atuação, tais como: ação ansiolítica – para reduzir a ansiedade, ação neuroprotetora, ação antipsicótica, ação anti-inflamatória e antiepilética.

O uso medicinal da substância tem diversos efeitos positivos no tratamento de doenças. Por isso, até hoje alguns pesquisadores defendem uma melhor reclassificação para o canabidiol por parte da Anvisa. Vários deles apontam para que o uso seja imprescindível e não necessite de uma prescrição, já, que, desde 1843 há registros do uso medicinal da cannabis em pacientes com crises convulsivas, por exemplo.

Para a Dra. Carolina Nocetti, P&D na área de cannabis e inovação em saúde e coordenadora do ABMedCAN, a maior mudança após autorização da Anvisa foi vista na qualidade de vida de milhares de pacientes com doenças crônicas e refratarias. “Atualmente há mais de 4 mil brasileiros com autorização para importação. Acredito que o acesso à terapia canabinoide por estes pacientes traz uma esperança no tratamento de sua doença, que possivelmente passou por várias tentativas diferentes de medicamentos sem obter sucesso”, conta a profissional.

Em dezembro de 2014, o Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo), aprovou o uso compassivo do canabidiol para o tratamento de epilepsias da criança e do adolescente refratárias aos tratamentos convencionais. A Dra. Carolina acredita que com pesquisas, informações e capacitação profissional, as associações médicas irão aderir cada vez mais a cannabis medicial. “O uso terapêutico é muito promissor. As pessoas cada vez mais têm buscado por tratamento e a terapia canabinoide está trazendo qualidade de vida aos pacientes e seus familiares”, explica a doutora.

Criação, benefícios e malefícios

O canabidiol pode ser sintetizado em laboratório ou extraído da cannabis. A planta passa por um processo de extração que pode ser alcoólico, supercrítico de CO2, ou por outros métodos. A proporção de CBD varia entre as linhagens de plantas, o que irá refletir na concentração deste dentro do extrato. Escolhida a variedade de cannabis a ser utilizada, submete-se a matéria prima, que pode ser a planta inteira ou suas inflorescências.

A variados processos de extração que separam os princípios ativos, que são oleosos, dos outros componentes da planta, que são solúveis em água. Após esta separação, a fração que contém os canabinoides é concentrada e usada na produção de medicamentos com diferentes diluições, as quais podem ser feitas em óleos vegetais, álcool ou glicerol.

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Uma das fases da extração da cannabis sativa | (Foto: Reprodução)

O que diz o especialista

Para Renato Malcher, bacharel em ciências biológicas pela Universidade de Brasília (UnB), a maconha tem vários benefícios. “A cannabis e seus derivados, quando usados deforma orientada e não abusiva, produzem efeitos positivos, que muitas vezes não são obtidos por nenhum outro medicamento atualmente disponível”, conta o professor.

Potencial terapêutico como neuroprotetor, imunomodulador, anti-inflamatório, anticonvulsivante, entre outros, são alguns dos benefícios do canabidiol. Ele também ajuda na melhoria da resistência à fratura de ossos e no combate de doenças como depressão, diabetes e esquizofrenia.

Usado de forma abusiva, a cannabis pode ser um risco, mesmo que mínimo. “O uso em excesso da cannabis pode levar a um quadro problemático em cerca de 9% dos usuários. Quando ocorre, o nível de gravidade de dependência em substâncias varia muito conforme a situação psiquiátrica, emocional e social de cada indivíduo”, disse Malcher.

E para Carolina Nocetti não é diferente. O canabidiol não tem efeitos intoxicantes e são poucos os malefícios, além de que a OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou que o composto presente na maconha não causa dependência química. O tetraidrocanabinol, ou THC, é a principal substância psicoativa encontrada nas plantas do gênero cannabis e possui efeitos cognitivos. Diferente dele, o canabidiol constitui grande parte planta, mas não provoca mudanças de humor e comportamento. Assim, ele “não é susceptível de ser abusado”, diz a OMS.

O responsável pela “nova vida” de Anny

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Norberto Fischer ao lado de sua esposa, Katiele, e suas duas filhas, Júlia e Anny. (Foto: Bruno Cavalcanti)

Norberto Fischer é pai de Anny, a primeira brasileira autorizada judicialmente a importar um derivado da cannabis para uso medicinal. Aos 4 anos de idade Anny foi diagnosticada com a CDKL5, uma rara síndrome que não tem cura. Após diversas tentativas com cirurgias e medicamentos de resultados desanimadores, Norberto teve que buscar outras soluções mais bruscas, ou melhor, mais saudáveis.

Blog Foca News: Com qual doença sua filha nasceu e como a cannabis medicinal ajuda no tratamento?

Norberto Fischer: Minha filha Anny nasceu com um erro genético denominado CDKL5, aos 40 dias de vida ela teve sua primeira convulsão e demoramos 4 anos para conseguir o diagnóstico. Entre as diversas características da Síndrome, estão as convulsões de difícil controle e autismo. Com o uso do CBD conseguimos combater praticamente todas as convulsões.

Blog Foca News: Como você descobriu os benefícios que o canabidiol poderia trazer para a sua filha?

Norberto Fischer: Minha esposa estava buscando na internet alguma coisa que pudesse ajudar. Um belo dia ela viu em um site americano de apoio às famílias com filhos com CDKL5. Um dos pais publicou falando que iria usar o CBD. Alguns dias depois esse pai relatava a melhora de sua filha e como as crises tinham sido controladas. Depois disso resolvemos estudar o assunto e descobrimos que o CBD era um dos derivados da maconha. Resolvemos ir atrás de mais informações.

Blog Foca News: Como foi descobrir sobre o CBD e como começou o uso da substância?

Norberto Fischer: Foi um choque, pois além do preconceito com a planta, sabíamos que era ilegal no Brasil. Mas o desespero de ver Anny cada dia pior nos motivou a tentar o uso. Com isso, começamos a usar ilegalmente em novembro de 2013. Após nove semanas Anny reduziu o número de crises de 60 por semana para zero. Então continuamos a utilizar a substância.

Blog Foca News: A quanto tempo a sua filha usa o canabidiol e como você conseguiu na justiça a liberação para realizar o tratamento?

Norberto Fischer: Anny começou no dia 11 de novembro de 2013. Na tentativa de importar o CBD, em fevereiro de 2014, fomos “pegos” e Anny ficou sem a substância. Em 10 dias minha filha voltou a ter as 60 convulsões por semana. Estávamos em contato com a USP de Ribeirão Preto, que fez um relatório sobre o uso de CBD pela Anny. Com a posse desse relatório, entramos com uma liminar na justiça para que pudéssemos importar o canabidiol sem a interferência da Anvisa. Foi então que no dia 3 de abril de 2015 Anny se tornou a primeira Brasileira autorizada a usar um produto da cannabis de forma medicinal.

Blog Foca News: Você faz parte ou conhece algum grupo ou associação que é a favor da cannabis medicinal?

Norberto Fischer: Existem hoje centenas de associações de uso da Cannabis no Brasil. Entre elas registro as três mais fortes: a AMA+ME em Belo Horizonte, a APEPI no Rio de Janeiro e a ABRACE na Paraíba.

Blog Foca News: Por que você acha que a sociedade ainda tem um certo preconceito em relação a usar a cannabis medicinal em tratamentos?

Norberto Fischer: A falta de conhecimento é o motivo do preconceito existente. Quando a pessoa estuda sobre o assunto, busca se informar, o preconceito desaparece. Eu sugiro que assistam ao documentário “Ilegal”, que está disponível no Netflix. É uma forma rápida e consistente de mostrar a realidade dos fatos.

Blog Foca News: Por fim, antes da liberação da maconha como remédio, por quais dificuldades no tratamento vocês passaram?

Norberto Fischer: As principais foram com convulsões diárias que Anny tinha. Antes da liminar da minha filha e da reclassificação do CBD e THC pela Anvisa, o uso no Brasil era ilegal. Com isso, foram criados protocolos pela Anvisa e pela Receita Federal para permitir a importação de forma simplificada. Porém, precisamos avançar ainda mais. É necessário que a Anvisa dê o próximo passo para a regulação do plantio no Brasil. Com a produção nacional, iremos desenvolver as pesquisas necessárias e até mesmo reduzir os custos a médio prazo.


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